Convite ao trabalho
Haeresis 2025
A linguagem do equívoco e o fazer do analista em nosso tempo
Aline Accioly
Cirlana Rodrigues de Souza
Germano Almeida Faria Fortunato Pereira
Em uma das séries de aulas que Jacques Lacan (1975, p.98) proferiu em sua visita aos Estados Unidos, ele afirmou que “a civilização é o dejeto e os dejetos são a única coisa que testemunha que temos, muito incertamente, um interior. A característica do homem é que ele não sabe o que fazer com seus dejetos.” Lacan insiste em não reduzir o ser humano a sua porção psicologizante, muito menos a uma elevação categorial transcendental, tampouco a reduzi-lo à uma passividade reflexiva de estruturas ou condições sócio-históricas determinadas, e nem à biologia da espécie. Não se trata de ignorar esses aspectos constituintes do humano, mas o trabalho do psicanalista é sobre outro desses aspectos: aqueles da e na linguagem que comportam a dor, o sofrimento e as mazelas do sujeito. A psicanálise é justamente o espaço de linguagem da cura e do tratamento da angústia. O sujeito freudiano não coincide com o Eu dos filósofos – “mero feixe instável de impressões sensíveis”, nem resume-se à instância de um Eu primário/originário, pois constitui-se estruturalmente como um antagonista das exigências da vida pulsional e da cultura.
Como podemos nos servir da provocação lacaniana dos anos de 1970 para retornar à leitura de outra proposição, nos anos cinquenta: “Deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”? (Lacan, 1953, p. 321). E, acrescentando um passo a mais: O que é inconsciente em nossa época? Como psicanalisar em 2025? Essa será a direção de trabalho nos espaços da Haeresis este ano.
Ao retomar a letra freudiana e seu modo de interpretar os equívocos, Lacan investigou os atos freudianos em seus cinco casos paradoxais. O psicanalista francês se espantou com o desapreço que os analistas demonstraram pelas intervenções freudianas, que perdura até hoje. Sigmund Freud formulou que todo ato falho é um discurso bem sucedido e o lapso é a mordaça que gira em torno da fala, pois um bom entendedor sempre encontra sua meia palavra. Se o sintoma do sujeito se resolve quando sua trama é analisada na gramática que o suporta, deixa em aberto como manejar a repetição na associação desses mesmo elementos, infinitizando a produção de sintomas, pois a mola inconsciente não cessa de combinar elementos e ordenar seus equívocos, articulando e desarticulando sintomas. A linguagem, no entanto, não cessa de revelar o sujeito e seu inconsciente.
Quanto mais a análise das resistências foi estabelecida como direção de tratamento das análises, maior ficou o desconhecimento do sujeito em seu arranjo singular no campo da linguagem. O jeito com que Freud lidava com a resistência, em cada caso, demonstra esses impasses, quando, por exemplo, reconheceu a resistência do Homem dos Ratos nas primeiras sete sessões. Mas deixou passar e as escreveu no escrito sobre o caso, demonstrando que suas decisões clínicas não ignoraram, mas entendiam as resistências como parte da transferência. Freud decidiu, portanto, incentivar o sujeito a superar suas primeiras hesitações, sabendo do perigo imaginário dessa sedução.
Na escrita do caso, Freud localizou “o horror, em seu rosto, de um gozo ignorado” quando o paciente falou do rato entrando pelo anus e reparou na reação de Freud, marcando sua entrada no relato do paciente. Nem por isso, Freud interpretou para o paciente suas resistências. Acedeu à solicitação deste, a ponto de parecer ter entrado no jogo do sujeito. Posteriormente, essa estratégia se revelou interventiva, a tal ponto de ter sido encadeado, no seu pensamento do paciente, entre os ratos, com os florins com que remunerava o analista. Freud sabia da resistência, mas serviu-se dela para implicar o sujeito na ressonância da fala, quando o disposto diálogo, que parecia situar-se como uma conversa, deixando entrever a divisão do falante. (Lacan, 1953, p.292)
A fala faz ouvir o que ela não diz. Para isso, exige-se assimilar os recursos da língua primitiva do sujeito para ouvir o que ela evoca, e não o que ela informa. É responsabilidade do analista que sua resposta ao sujeito, seu ato, sua interpretação, não seja de aceite ou recusa de seu discurso e de sua pergunta, mas possa reconhecê-lo como sujeito (ou abolido desse lugar) em sua pergunta. Afinal, a fala é um corpo sutil, mas é corpo. (Lacan, 1953, p.301-302)
Temos que dar ouvidos ao não-dito que jaz nos furos do discurso, mas isso não é para ser ouvido como pancadas desferidas atrás do muro da linguagem, são ruídos que não estamos em condições de compreender, decifrar o sentido, como traduzir aquilo que em si não é linguagem? (Lacan, 1953, p.307-308).
Ao apelar ao sujeito, este marca seu compasso ao transitar na linguagem. O analista, quando é causado por sua pressa em concluir, guia o discurso do sujeito para a realização de uma verdade (do analista), reduzindo a transferência à relação fantasmática em que dois abismos que se roçam sem se tocar. Quando é impelido a buscar a realidade do sujeito para além de sua montagem, recai na crença que a verdade está previamente dada na história e que seria possível ao analista conhecê-la de antemão. Freud advertia aos psicanalistas de seu tempo que a transferência poderia ser uma repetição da neurose, manifestando o amor, o ódio e a ignorância. A recusa do analista em responder como saber, abstendo-se da mestria, abre a passagem entre real e simbólico. Esse não-agir em função de um saber prévio permite ao sujeito descobrir algo até então não-sabido de si.
Lembramos, no entanto, que essa suposta abstinência do analista não é indefinidamente sustentada, pois quando o sujeito toma seu lugar como falante, ainda que falado, podemos então pontuar sua dialética.
O analista desempenha um papel de registro, de recolher do sujeito o que sua fala evoca, como testemunha que responde pela sinceridade do sujeito, depositário do processo verbal de seu discurso, referência de sua exatidão, garante de sua integridade, guardião de seu testamento, tabelião de seus codicilos, o analista participa do escriba. (Lacan, 1953, p.314)
Engajar-se no discurso analítico implica, ao analista, alocar-se na trama disjuntiva para escrever as inescapáveis equivocações na língua, como forma de habitar o escrito, apresentando, assim, o real enroscado pela estrutura de linguagem e esvaziado dos mitos que, originariamente, supre.
Seguir o fio do discurso analítico, não tende a nada menos do que a romper de novo, a virar, a marcar com uma encurvação própria, e com uma encurvação que não poderia mesmo ser mantida como sendo a de linha de força, o que produz como tal a falha, a descontinuidade, a ruptura que nos sugere ver, na língua, o que afinal de contas a rompe. (Lacan, 1972-73/2010, p. 114).
No “O Seminário, livro 11”, 1964 (Os quatro conceitos fundamentais), que marcou oficialmente a inauguração do campo lacaniano após sua expulsão da IPA, Lacan deixou uma pista de qual seria a orientação dos seminários subsequentes: a distinção entre “o inconsciente freudiano e o nosso”. A diferença na maneira de formalizar o inconsciente foi detalhada e formalizada como título do “O Seminário, livro 24”, l’insu que sait de l’une-b’evue s’alie à mourre, quando Lacan brinca com a equivocidade da língua francesa para transliterar a nomeação do inconsciente na língua de Freud. Como podemos ler, l’une-b’evue translitera unbewusste vertendo “um significante” por “um significante outro”, com o suporte da sonoridade. Não estamos diante de uma cadeia significante, em que 𝑆1 traduz-se em 𝑆2. Trata-se de uma leitura do 𝑆1 que escreve outro 𝑆1, abrindo o enxame de 𝑆1 essum essum zumzum.
Conjecturamos que o acréscimo lacaniano à nomeação do conceito crucial da psicanálise – o inconsciente – imprime, sobretudo, sua inclusão no campo epistemológico e clínico, à seu modo. Por isso, de um inconsciente à outro, do seminário 11 (1964) ao seminário 24 (1976), não apenas encontramos uma dimensão histórico-cronológica do ensino de Lacan, leitor de Freud, mas destacamos um período de trânsito entre o inconsciente estruturado como uma linguagem e o inconsciente como equívoco que alterou consideravelmente o modo de psicanalisar.
Não se trata, portanto, de uma substituição ou superação de argumentos lógicos, pois Lacan sempre contou e incitou os psicanalistas a não ignorarem o terreno freudiano. Quando afirmamos que a transformação entre modos de formalizar o inconsciente alterou o ato analítico, destacamos que o verbo, utilizado no passado, sugere o percurso de ação que teve início e conclusão no passado. Mas nossa proposta de trabalho este ano intenciona pulverizar esta certeza, interrogando-a: alterou? Não era suposta de alterar? Se altera, em que?
Cada analista autoriza-se por si, com alguns outros, e situa, em sua práxis e em seu ato, como se implica neste percurso. Apostar num fazer clínico artesanal a partir da noção de inconsciente tem consequências, um preço a pagar. Vamos abrir espaço para interrogar as consequências de uma direção de leitura que se orienta pela letra originária, produzindo efeitos manifestados no corpo falante no ato de leitura, sabendo-se estrangeiro entre línguas e insistindo em passar a-diante. Afinal, “estamos do lado do paciente no muro da linguagem, que é o mesmo muro pra ele que é para nós, mas tentamos responder ao eco de sua fala. (Lacan, 1953,p. 317).
Calendário de trabalho 2025
- Seminário de Sigmund Freud
Coordenação: Germano Almeida
Texto de trabalho: Freud, S. (1901/1904). A psicopatologia da vida cotidiana.
Datas dos encontros: 13/03, 27/03, 10/04, 24/04, 15/05, 29/05, 12/06, 26/06, 14/08, 28/08, 11/09, 25/09, 16/10, 30/10, 06/11
Horário: 9h-11h
O seminário será realizado de forma online, via GoogleMeet.
Valor: R$ 200,00 mensal
Inscrições: germanoalmeida.pereira@gmail.com
- Seminário de Jacques Lacan – Coordenação: Aline Accioly e Cirlana Rodrigues
Texto de trabalho: Lacan, J. (ano). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
Datas do encontros: 08/03, 22/03, 05/04, 19/04, 03/05, 17/05, 07/06, 09/06, 23/08, 13/09, 27/09, 11/10, 25/10
Horário: 10h-12h
O seminário será realizado de forma presencial em Uberlândia. Residentes de outras cidades que desejam participar de modo online podem mandar email para viabilizarmos a participação de modo híbrido.
Valor: R$ 200,00 mensal
Inscrições: alinesieiro@gmail.com ou cirlanarodrigues@gmail.com
Há um desconto de 10% para os participantes dos dois seminários.
- Giros do nó
Giros do Nó é um espaço onde os colegas psicanalistas, participantes dos seminários, se colocam (e nos colocam) a trabalho de “questões” que lhe são pertinentes a partir de seu fazer como psicanalista e dos efeitos do seminários. Este espaço se estende ao longo do ano, com três momentos: no primeiro semestre, segundo semestre e na Reunião Aberta, onde o objetivo é reescrever a questão mediante o avanço dos trabalhos. Maiores informações com os participantes.
Gratuito para os participantes do Seminário de Freud e Lacan.
Datas Previstas: 29/03, 10/05, 31/05, 30/08, 06/09, 04/10
Horário: 10-12h
- Grupo de Supervisão clínica-institucional em psicanálise com crianças e adolescentes.
Data: Quartas-feiras (início previsto para 12/03/2025), quinzenal, presencial.
Horário: 18h-20h.
Maiores informações: cirlanarodrigues@gmail.com
- Leitura do texto O que é um significante? de Cirlana Rodrigues
(Atividade prevista para o segundo semestre, com outras informações, posteriormente)
“O que é um significante?” Durante a pandemia participei de um evento on-line, na semana de psicologia (IP/UFU). Falei sobre o significante na psicanálise. Persegui momentos da teoria onde é feita a pergunta “O que é um significante?”, por Lacan. A minha questão foi, e ainda é, por qual razão Lacan faz essa pergunta em momentos tão distintos de suas formulações, e não apenas sobre o que fazia com a noção de significante. O que foi solucionado dessa questão? Quais os efeitos na clínica e na metapsicologia com o que vinha depois que a pergunta era feita? E, claro, com o “adeus à linguagem”, o que resta dessa questão? O que resta do resto que forma o inconsciente psicanalítico? Do material deste curso, produzi uma primeira parte de escrita sobre os dois primeiros tempos da questão. Falta um terceiro tempo que está em elaboração (estou tomando esse enunciado como um marcador de transformação na teoria, pois o ‘significante’ sempre foi o que é, um equívoco, não se limitou a ser só o funcionamento do inconsciente ou uma lógica de unidade da teoria psicanalítica). Este ano, terminarei esse escrito e, pasmem, na forma de ensaio (mais ou menos rs). Vai se chamar, evidentemente, “O que é um significante?”. Antes de colocar o texto-livrinho em circulação, farei alguns encontros com interessados em ler essa questão. Veremos no que vai dar esse “fetiche pelo significante” (Tupinambá, 2024). E vamos para além do princípio da subversão, por favor e, reforçando, que coisas como o significante de Lacan e o significante de Saussure já foram bem investigadas. Não é mais isso.”
- VII Reunião Aberta da Haeresis
Tema geral: A linguagem do equívoco e o fazer do analista em nosso tempo
Data: 13 e 14 de novembro de 2025
Inscrições Gratuitas, com maiores detalhes no segundo semestre de 2025.